sábado, 10 de abril de 2010

INTRODUÇÃO à exposição "VIEIRA - O VERBO E ALUZ", por Carlos Dugos


Quando em Outubro de 2007 fui convidado, pela Comissão Organizadora das Comemorações do IV Centenário do Nascimento do Padre António Vieira, para realizar uma exposição de pintura com temática vieirina, apercebi-me de imediato da magnitude da empresa e da escassez de tempo para a levar a efeito.

No entanto tornou-se impossível deixar de aceitar o desafio; embora os modestos recursos de que disponho não possam emparceirar com a grandeza da obra de Vieira, fascinou-me a possibilidade de traduzir para a luz o seu verbo, transferir do ouvido para o olhar a imagética que as suas palavras e ideias suscitam.

De há muito que a minha atenção se tinha dedicado à obra do Padre António Vieira, não tanto pela genialidade do excelso pregador, mas particularmente pela inspiração profética do visionário providencial; foi por essa razão – disseram-me – que o convite me foi endereçado.

No entanto, afigurou-se redutor ignorar ou relegar para um segundo plano os sermões que, pela pujança e substância, constituem a parte mais consensual e divulgada do seu labor.

Assim, o presente conjunto de pinturas dirige-se, no essencial, à evocação da profecia do V Império entendida como a antecipação da universalidade das relações humanas sob a égide de um Imperador português, garante espiritual de paz e da justiça em todo o Mundo.

O simbolismo deste conceito remete para o movimento centrífugo, para a expansão em todas as direcções, seja pela emblemática da rosa-dos-ventos, ou pela imagem dos “dois mundos” unidos pela vesica piscis, símbolo geométrico de Cristo Glorioso. E o centro destas irradiações surge tanto pela rosa mística como pela esfera armilar do Império manuelino.

Alguns quadros referem o enquadramento histórico subjacente à formulação da profecia – a catástrofe de Alcácer-Quibir e a perda da soberania portuguesa. Neste sentido, a fé que Vieira investiu no Rei da Restauração – D. João IV – considerando-o como futuro Imperador do Mundo, foi substituída por outra entidade, menos ligada aos circunstancialismos históricos, e mais representativa da aspiração salvífica lusitana.

Com efeito, pelo vaticínio de Bandarra – muito visitado e celebrado pelo Padre António Vieira – seria o grande Príncipe Oculto, o Desejado, no suspirar do povo, o Encoberto, pela névoa da decadência, que regressaria do Hades africano para restaurar a ordem, a paz e a justiça, o Senhor Rei D. Sebastião, ícone por excelência da Saudade portuguesa.

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